domingo, 31 de maio de 2009

Sempre Atrasado

Corri para os braços da moça que amo, mas ela já estava dormindo

Corri para pegar o trem, mas a estação já estava vazia

Corri para ver as flores, mas já era outono

Corri para ver a criança nascer, mas já era moça feita

Corri para ver a fanfarra de carnaval, mas a quarta já era de cinzas

Corri para embalar a criança, mas ela já estava em outros braços

Mapeei o labirinto, mas já estava perdido

Corri para ver o por do sol, mas já era noite

Corri para velar o defunto, mas o cafezinho já estava frio

Subi no alto da torre, mas o suicida já havia pulado

Tentei sonhar com uma vida melhor, mas já era hora de acordar

Parei para rir da piada, mas agora a piada era eu

Corri para embalar a criança, mas ela já estava dormindo

Corri para os braços da moça que amo, mas ela já estava em outros braços

Subi no alto da torre, mas agora o suicida era eu.

domingo, 10 de maio de 2009

O Interfone

Aqui estou, parado, frente ao interfone da casa dela. É que existem coisas que precisam ser ditas. É noite. Olho para o céu contemplando as estrelas, esperando que alguma caia para atender meu pedido. Penso no quão grande é o universo, quantas constelações, quantos mundos e dimensões. Eu poderia estar em qualquer lugar agora, quem sabe outro planeta. Mas aqui estou, parado, frente ao interfone da casa dela. É que existem coisas que precisam ser ditas.

Mas enfim, O que dizer?
Que amo as mafaldas do cabelo dela?...
Que sou apaixonado pelo brilho negro do olhar dela quando sorri?...
Que quando ela está por perto, fica tudo bem?...
Que na minha condição de girassol, ela é meu um metro e sessenta e cinco de sol?...

Quem sabe, começar com um abraço. O abraço significa o limite, a fronteira, é o mais perto que eu posso chegar dela quanto amigo.
ir além da fronteira? Volto a olhar para o céu e fico pensando quantas estrelas teriam que cair para isso acontecer.

É melhor esquecer o interfone e pensar em outra forma de fazê-la ficar sabendo dessas coisas. Como escrever um conto; um poema, não, não sou poeta; talvez compor uma música com o nome dela. Não, esquece, já deve haver um monte de músicas com o nome dela. Imagino como terá se sentido Ana Júlia ao ouvir pela primeira vez o som melódico do sofrimento de alguém que a amou.

O vento traz poeira ao meu rosto, a sobriedade traz a triste realidade do presente a que tanto me nego aceitar.

Aqui estou, parado, frente ao velho interfone das ruínas do que um dia foi a casa dela. À passos bêbados caminho por entre pedaços de paredes erguidas. Vejo fantasmas, a criança correndo pela sala, a mulher descendo a escada. Será o efeito do álcool nas minhas veias? Ou o desejo da minha mente de vê-la mais uma vez?

Mais uma pergunta: Se eu tivesse tocado o interfone, teríamos sido felizes?

Na sala de jantar, sem telhado, olho para o céu, contemplando as estrelas e o vasto universo. Quantas constelações, quantos mundos e dimensões.
Por onde andará você agora?

Te perdi!?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Porque eu canto?

Faz algum tempo, passando por um corredor, ouvi o som de violinos. Segui o som pelo corredor e me deparei com o ensaio de uma orquestra sinfônica. Nunca fui muito ligado em música clássica, mas, naquele instante, tive minha atenção roubada. O som provocou em mim sensações ainda desconhecidas. Quando, de repente, tudo parou.

Alguém cometeu um erro. O maestro com um gesto elegante cessou o som e com outro gesto (Esse não tão elegante), expeliu uma porção de palavrões sobre um único infeliz violista. Então algo me intrigou: devia ter uns oitenta músicos ali, como ele sabia quem havia errado?

O intrigante fato me motivou a estudar música clássica. Exatamente um ano após o episódio, me tornei parte integrante daquela mesma orquestra. Foram bons momentos, tocávamos músicas que falavam de amor, de tempo e de morte. Aprendi muitas coisas, sobre música e sobre a vida. Quando, de repente, tudo parou.

Alguém cometeu um erro. Eu sabia quem, O maestro também. Era eu agora, o infeliz violista a receber o severo julgamento (Enquanto refletia sobre elegância).

O evento foi o marco final da minha carreira como violista, não pelo erro, não pelo julgamento do maestro, mas porque era tempo de parar.

O silêncio não durou muito. Já não era o som da viola, era o som da minha voz a ser ouvido.

Mas peraí! Cantar? Porque?

Não lembro exatamente como começou. Logo me vi cantando salmos e Ave Marias enquanto na platéia estavam senhorinhas com os olhos em lágrimas. Um fan clube inteiro de beatas.

Lembro ainda de uma missa de corpo presente, o curioso desse caso estava no público, inexistente. As pessoas presentes eram três: Eu, o padre e o morto (nunca aplausos fizeram tanta falta). Enquanto eu cantava, pensava sobre que tipo de pessoa era aquela, que tipo de crimes ele deveria ter cometido, que tipo de pai, que tipo de filho ele foi. Não pude deixar de observar ainda, a expressão no rosto do morto, havia um leve sorriso, como se ele estivesse gostando do que estava ouvindo. Ao fim da celebração, fiquei um momento só com o corpo. Algumas palavras, uma música saideira. Ele gostou, percebi pelo sorriso em seu rosto.

Logo vieram os casamentos, me tornei um pop star desse segmento. Muitas famílias começaram ao som solitário da minha voz. Certa vez, momentos antes de começar a celebração, uma criança veio até mim com um bilhete. Era um pedido da noiva, que sonhava em deixar a igreja ao som de “I say a little prayer for you”. O problema era que, no contrato do cerimonial, estava previsto que o casamento se encerraria com uma musica do Roberto Carlos. Eis o meu dilema. No fim, fiz o que pensei ser o certo. Eis a minha surpresa, os noivos pararam o cortejo de saída no meio da igreja, se viraram para mim, a noiva sorrindo gritou:
- obrigada!
- Forever and ever you'll stay ...♪♫

Esse é um longo texto, mas essas lembranças vieram à tona agora, em um pensamento. Estou no palco, sobre mim, uma luz forte, à minha frente, um pálido maestro e o vão negro do teatro. Escuto murmúrios, alguém que tosse na platéia. Um frio na barriga, o coração batendo forte.

Então me pergunto: por que eu canto?

Respiro profundo e a música começa. Canto músicas que falam de amor, de tempo e de morte. Ao fim, a platéia levanta.

Aplausos.

Então me veio a resposta: É por eles que eu canto, é pelas senhorinhas da igreja, é pelo sorriso do defunto, é pela gratidão da noiva.

Entre gritos de “BRAVO, BRAVÌSSIMO” olho pra morena sentada na primeira fila, então sussurro:

- É por sua causa que canto.

Cortinas se fecham. Fim do espetáculo.