Faz algum tempo, passando por um corredor, ouvi o som de violinos. Segui o som pelo corredor e me deparei com o ensaio de uma orquestra sinfônica. Nunca fui muito ligado em música clássica, mas, naquele instante, tive minha atenção roubada. O som provocou em mim sensações ainda desconhecidas. Quando, de repente, tudo parou.
Alguém cometeu um erro. O maestro com um gesto elegante cessou o som e com outro gesto (Esse não tão elegante), expeliu uma porção de palavrões sobre um único infeliz violista. Então algo me intrigou: devia ter uns oitenta músicos ali, como ele sabia quem havia errado?
O intrigante fato me motivou a estudar música clássica. Exatamente um ano após o episódio, me tornei parte integrante daquela mesma orquestra. Foram bons momentos, tocávamos músicas que falavam de amor, de tempo e de morte. Aprendi muitas coisas, sobre música e sobre a vida. Quando, de repente, tudo parou.
Alguém cometeu um erro. Eu sabia quem, O maestro também. Era eu agora, o infeliz violista a receber o severo julgamento (Enquanto refletia sobre elegância).
O evento foi o marco final da minha carreira como violista, não pelo erro, não pelo julgamento do maestro, mas porque era tempo de parar.
O silêncio não durou muito. Já não era o som da viola, era o som da minha voz a ser ouvido.
Mas peraí! Cantar? Porque?
Não lembro exatamente como começou. Logo me vi cantando salmos e Ave Marias enquanto na platéia estavam senhorinhas com os olhos em lágrimas. Um fan clube inteiro de beatas.
Lembro ainda de uma missa de corpo presente, o curioso desse caso estava no público, inexistente. As pessoas presentes eram três: Eu, o padre e o morto (nunca aplausos fizeram tanta falta). Enquanto eu cantava, pensava sobre que tipo de pessoa era aquela, que tipo de crimes ele deveria ter cometido, que tipo de pai, que tipo de filho ele foi. Não pude deixar de observar ainda, a expressão no rosto do morto, havia um leve sorriso, como se ele estivesse gostando do que estava ouvindo. Ao fim da celebração, fiquei um momento só com o corpo. Algumas palavras, uma música saideira. Ele gostou, percebi pelo sorriso em seu rosto.
Logo vieram os casamentos, me tornei um pop star desse segmento. Muitas famílias começaram ao som solitário da minha voz. Certa vez, momentos antes de começar a celebração, uma criança veio até mim com um bilhete. Era um pedido da noiva, que sonhava em deixar a igreja ao som de “I say a little prayer for you”. O problema era que, no contrato do cerimonial, estava previsto que o casamento se encerraria com uma musica do Roberto Carlos. Eis o meu dilema. No fim, fiz o que pensei ser o certo. Eis a minha surpresa, os noivos pararam o cortejo de saída no meio da igreja, se viraram para mim, a noiva sorrindo gritou:
- obrigada!
- Forever and ever you'll stay ...♪♫
Esse é um longo texto, mas essas lembranças vieram à tona agora, em um pensamento. Estou no palco, sobre mim, uma luz forte, à minha frente, um pálido maestro e o vão negro do teatro. Escuto murmúrios, alguém que tosse na platéia. Um frio na barriga, o coração batendo forte.
Então me pergunto: por que eu canto?
Respiro profundo e a música começa. Canto músicas que falam de amor, de tempo e de morte. Ao fim, a platéia levanta.
Aplausos.
Então me veio a resposta: É por eles que eu canto, é pelas senhorinhas da igreja, é pelo sorriso do defunto, é pela gratidão da noiva.
Entre gritos de “BRAVO, BRAVÌSSIMO” olho pra morena sentada na primeira fila, então sussurro:
- É por sua causa que canto.
Cortinas se fecham. Fim do espetáculo.